Entre a Paz e o Veneno
Por Ana Igansi
Acordo.
O dia me serve silêncio e luz.
Há em mim uma paz que não pede licença,
uma alegria limpa, recém-lavada,
como quem acaba de nascer de novo.
Mas logo lembro que o mundo não se move
no mesmo compasso do meu peito.
Convivo — por destino, dever ou acaso —
com rostos que não sorriem sem cálculo,
com vozes que, como pássaros enjaulados,
cantam apenas para ecoar o próprio som.
Nietzsche dizia que “quem luta com monstros
deve cuidar para não se tornar um deles”.
E é assim:
há pessoas que, sem levantar a mão,
ferem como lâminas invisíveis.
Ferem com o peso do desprezo,
com a frieza do silêncio,
com a sutileza das palavras que corroem.
No trabalho, nas famílias, nos vínculos que não se pode romper
— porque há laços que a vida amarra com nó cego —
respiramos o mesmo ar
de quem espalha veneno pelas frestas da convivência.
Carl Jung lembrava que tudo o que nos irrita nos outros
pode nos levar a compreender melhor a nós mesmos.
Mas compreender não é aceitar o abuso.
Há um limite entre a paciência e a própria dignidade,
e a alma adoece quando esse limite é violado
dia após dia.
A Organização Mundial da Saúde já registrou:
o mal-estar crônico da vida moderna
tem cheiro de relações tóxicas,
de ambientes onde a empatia é um estrangeiro.
Não é só o corpo que adoece —
é a esperança.
Por isso, escolho — ainda que não possa partir —
criar um espaço sagrado dentro de mim,
onde a paz que senti ao acordar não se apague
pelo olhar de quem não sabe ver.
Sim, convivo com alguns rostos por obrigação.
Mas convivo, sobretudo, comigo —
e aí, neste território íntimo,
ainda sou livre para escolher a quem permito ficar.
Como escreveu Viktor Frankl:
“Tudo pode ser tirado de um homem,
exceto a última das liberdades humanas —
escolher sua atitude em qualquer circunstância.”
E assim sigo:
entre a paz que cultivo
e o veneno que não bebo.







