A Geografia dos Adeuses
Por Ana Igansi
Há palavras que nascem para ficar
e outras que nascem para ir.
“Adeus” é uma dessas —
curta na forma, infinita no efeito.
É um verbo que não conjuga no presente,
um ponto final que, às vezes,
se disfarça de reticências.
“A morte é o lado da vida que não olhamos.”
— Rainer Maria Rilke
O Adeus da Morte
O mais irreversível.
Aquele que nos arranca alguém
sem que possamos negociar com o tempo.
E no entanto, ao virar a curva,
descobrimos que o amor
não morre junto com o corpo.
Ele se aloja na lembrança,
no perfume que a manhã traz,
no tom de voz que ainda escutamos em sonhos.
O luto não é esquecer —
é aprender a viver com um lugar vazio
sempre cheio de presença.
“O luto é amor que não sabe onde colocar-se.”
— Anônimo
O Adeus que Ama
Há despedidas que não nascem do abandono,
mas do cuidado.
É quando o amor percebe
que, para preservar, é preciso afastar.
Partir, nesse caso,
é plantar liberdade
para que o outro floresça.
“Quem tem um porquê, suporta quase qualquer como.”
— Viktor Frankl
O Adeus do Destino
A viagem que seria breve.
O retorno marcado.
O sorriso prometido na semana seguinte.
Mas o destino, com seu humor trágico,
transforma passagens de ida em epitáfios.
Ficamos com a bagagem do afeto,
pesada e sem lugar para despachar.
“O que o acaso me dá, o destino me toma.”
— Roland Barthes
O Adeus de Reticências
Há o “até logo” que o tempo devora.
O reencontro prometido que se dissolve no esquecimento.
E é nesse pouco que, às vezes,
vamos nos desfazendo
até que reste apenas silêncio.
“Partir é morrer um pouco,
morrer é partir demais.”
— Fernando Pessoa
A Alma como Mapa
Todos esses adeuses habitam o mesmo território:
a alma.
Misturam-se, mudam de forma,
mas nunca desaparecem.
E talvez seja por isso
que o adeus, quando bem vivido,
não é só perda.
É também um ato de amor.
Pois só dizemos adeus
a quem, de algum modo,
foi eternidade em nós.
“A dor é a quebra da casca que envolve o entendimento.”
— Khalil Gibran







