O Último Quarto
Por Ana Igansi
Arrancaram-no do chão que conhecia,
do travesseiro moldado pelo tempo,
das fotografias nas paredes que guardavam,
em silêncio,
as histórias que ele mesmo construiu.
Foram mãos que um dia ele guiou,
ensinado a escrever,
a andar,
a atravessar as ruas da vida.
Agora, são essas mesmas mãos que o deixam
à porta de um “lar”
que não tem cheiro de café,
nem o eco das gargalhadas de outrora.
E dizem — com um verniz de justificativa —
que é “para o bem dele”.
Mas como disse Viktor E. Frankl,
“o ser humano pode suportar qualquer como,
se tiver um porquê” —
e aqui, tiraram-lhe o porquê.
O filósofo Sêneca advertia que
não há maior pobreza que a da gratidão ausente.
E no entanto, nesta sala de paredes claras e alma fria,
o pai que foi alicerce
vê-se como um móvel deslocado,
catalogado para não incomodar.
Lá fora, a vida dos filhos segue
com heranças já adiantadas,
com o conforto que um dia foi semeado
pelo suor que agora ninguém lembra.
Em casa, ele deixara o quintal,
a sombra da árvore que plantou,
o banco da praça onde o vento conversava com ele.
A demência, lenta,
não é apenas esquecimento.
É um exílio interno,
e exílios precisam de raízes para não matarem de vez.
Mas quem se lembra que, por lei e por humanidade,
o idoso tem direito não só a cuidados,
mas ao amor que lhe é devido?
Carl Gustav Jung escreveu
que “a vida só começa aos quarenta”,
mas poucos percebem que,
aos oitenta, ela ainda pulsa —
se houver quem segure a mão.
Na poltrona do asilo, ele espera.
Não o almoço, não o chá —
mas o rosto de um filho que um dia
correu para seus braços.
E nesse intervalo que dói,
a solidão não mata apenas devagar:
ela arranca a dignidade pela raiz.
O abandono não é ato súbito.
É um processo,
plantado em pequenas negligências,
regado pela pressa do mundo,
colhido no dia em que se diz:
“É melhor para ele lá.”
E assim se apaga
o que foi farol.
E assim se esquece
que um dia também seremos velhos.
E que o respeito — como advertiu Simone de Beauvoir —
“é a única dívida que se paga antes de se receber”.
Enquanto isso, ele,
pai, mestre, abrigo,
olha para a porta que quase nunca abre,
e recita, sem saber,
o verso mais triste já escrito:
“Todos os homens são filhos de alguém.
E todos, um dia, esperam não ser esquecidos.”








