Quando os Olhos se Fazem Espelho
Por Ana Igansi
Há uma ponte invisível,
mais antiga que os impérios,
mais alta que as torres
onde reis e sábios procuraram o sentido.
Chama-se empatia.
Não nasce nos livros sagrados,
mas todos os contém.
Não se esconde nos tratados de filosofia,
mas é a luz que ilumina cada página.
Não é ciência nem arte,
e ainda assim é mãe de ambas.
O velho Sócrates diria: conhece-te a ti mesmo,
mas não há espelho mais fiel
do que os olhos de quem sofre
e, ao encontrar os teus,
percebe que não está só.
A empatia é o templo sem altar
em que dois corações respiram no mesmo ritmo.
Não exige preces,
apenas presença.
Não pede ouro,
pede silêncio —
o silêncio que acolhe e não julga,
que guarda o segredo de um pranto,
que sustenta o peso de um nome dito baixinho.
Na lição dos poetas,
a empatia é uma vela acesa
em meio à ventania:
ilumina pouco,
mas é o suficiente
para que alguém encontre o caminho.
Os psicólogos chamariam de
ponte afetiva,
os filósofos, de ética do outro,
mas o coração humano sabe:
empatia é o ato de
carregar nos ombros uma parte
do fardo que não te pertence,
sem perguntar o tamanho,
sem medir o esforço.
E um dia, quando os séculos se apagarem
e as palavras forem pó,
permanecerá o gesto —
única língua que todas as eras compreendem.
Porque, no fim,
somos todos estrangeiros na terra da dor,
até que alguém nos chame pelo nome
e nos convide a entrar.







